Sobre a destruição dos livros na história

“As coisas que dão medo, são as mais interessantes”

Foi com essa frase marcante que Fernando Baéz deu força à sua palestra “Sobre a destruição de livros na história” ministrada em 19 de maio de 2007, aqui em Foz do Iguaçu. A frase justifica o medo que o autor sentiu 

ao tratar de uma temática tão intrigante quanto difícil e como o desafio valeu a pena.

Baéz é o autor do livro “História universal da destruição dos livros”, uma temática bastante inovadora e pertinente, pois trata da história do conhecimento registrado e de quanto foi difícil preservá-lo ao longo da história. 

O historiador tem uma história digna de um livro. Passou boa parte de sua infância vivendo em uma biblioteca, pois seu pai, como ele mesmo fala, era um advogado honesto, ou seja, desempregado, e sua mãe trabalhava o dia inteiro em uma mercearia. Assim, passava o dia inteiro entre estantes e dezenas de volumes na biblioteca pública de São Félix, na Guayana da Venezuela. Ali descobriu o valor da leitura, “Soube que devia ler porque não podia não ler.” “(…) quando folheava páginas tão íntimas, esquecia a fome e a miséria, o que me salvou do ressentimento ou do medo.”

Tudo isso é verdade e Baéz é realmente essa figura marcada por uma infância nada fácil e com a profundidade de alguém que leu e leu muito. E não apenas isso, pesquisa e tem tanta experiência quanto horas de leitura.

Quem é apaixonado por livros, pelo conhecimento, vai gostar do livro de Baéz, que traz a tona um assunto tão sério quanto negligenciado. 

A pergunta que motiva Baéz desde o início é a que um estudante em Bagdá o fez, quando do histórico saque e destruição de todos os livros da Universidade de Bagdá. Enquanto contemplava um professor de história medieval abandonar o recinto desesperado, andando entre crateras de mísseis, um estudante se aproximou e perguntou porque o homem destrói tantos livros. Essa é a pergunta que Baéz tenta responder desde então. 

Vivemos em uma época de fartura de conhecimento. Blogs, veja que maravilha, é possível a todos que quiserem poder expressar suas idéias e ser lido por quem desejar, no mundo inteiro. Mas somente ao ler o livro de Baéz e ficar a par de um assunto tão sério, percebi o preço que pagamos, ao longo da história, para isso ser possível. E como é tão fácil, usual e corriqueiro, perdemos de vista o esforço que fizeram tantos seres humanos antes de nós para que o conhecimento registrado fosse um bem acessível a todos. É importante entender para não banalizar.

Ao longo da história humana, expressar uma idéia original a qual representasse a quebra de algum paradigma vigente, religioso, cultural ou científico, era tão arriscado para a vida de um indivíduo ou povo quanto necessário para a evolução humana. Assim, nos relatos dos grandes genocídios, guerras e conquistas, um ponto comum se destaca: a destruição dos livros, dos registros daquele povo ou cultura. Por isso destruiu-se idéias e matou-se inovações. Baéz defende, e eu concordo, que ao longo da história destruiu-se tantos livros não pelo objeto físico e sim como vínculo de memória, como forma de sobrepujar uma cultura a outra, ideologias sobrepondo ideologias. “O que se destrói no livro é a racionalidade que ele representa”.

Quanto mais esclarecedor é um conteúdo mais pode abalar a ordem vigente, ou seja, incomodar os que dominam (e manipulam). Parece drástico, mas foram milênios de história para a coisa mudar e ainda hoje o que mais temos, apesar de toda a tecnologia ao alcance, é lixo informativo, bobagens, superficialidades. Esprema a internet e menos de 1% do que sair dali será realmente útil. O resto é capricho. É o que eu penso. Mas também acho que isso é necessário até certo ponto para que todo o resto, o que realmente importa, o conhecimento útil, seja acessível a todos. 

A internet consagrou essa maravilhosa era da informação disponível, porque o subjetivo de cada um ao ser escrito, torna-se objetivo. É aí que o conhecimento pode ser efetivamente compartilhado. Essa é uma das idéias base da internet, não por acaso surgida da necessidade partilhar conhecimento (mas isso é assunto para outro post).

Porém a forma de informar o maior número de pessoas ainda é por meio de livros.

Livros são uma das maiores inovações de todos os tempos e o resultado de registrar-se as idéias para que outros pudessem ter acesso (inclusive você mesmo) foi um dos fatores que, ao meu ver, promoveram definitivamente a evolução da humanidade para o ponto que estamos hoje, com essa liberdade quase ilimitada de expressão por meio de registros, físicos ou virtuais, como é o caso deste blog. Estamos na ponta atual da evolução dos registros iniciados pelas tábuas de barro, há milênios atrás.

Tem uma frase a qual resume o valor dos livros para a humanidade “Livros não podem mudar o mundo, as pessoas podem mudar o mundo. Livros só podem mudar as pessoas”. É como as idéias inovadoras: são válidas se postas em prática e isso também significa escrever. E compartilhar. 

É um valor que conquistamos, considerando que, segundo Baéz, a destruição de livros na história fez desaparecer pelo menos 60% de todos os volumes da humanidade. Os 40% restante se foram devido aos desastres naturais, acidentes, mudanças culturais e os próprios materiais decompostos. Isso é inquietante.

E para terminar, parafraseio Baéz: o certo é que, enquanto você lê esse post, pelo menos um livro está desaparecendo para sempre.

“A liberdade não pode ser senão a liberdade integral, para todos.” (Fernando Baéz)

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3 Responses to “Sobre a destruição dos livros na história”


  1. 1 Aleph Ozuas 14 de abril de 2008 às 17:40

    Ótimo post Guedes. Tua escrita está muito clara e atraente.
    A Leila está lendo este livro e adoraria ter assistido a esta palestra. Esta questão da destruição dos livros é algo realmente triste e revoltante. Felizmente algumas iniciativas atuais, principalmente as feitas pelo Google, estão digitalizando um número crescente de livros, tornando possível a preservação (pelo menos digital) e o acesso a um número cada vez mais maior de pessoas, ávidas por boas leituras e por conhecimento.
    Concordo também com esta crítica ao conteúdo na Internet, com uma parcela mínima de conteúdo aproveitável, mas acho que cabe a nós filtrar o que é bom e ruim e essa é a beleza da Internet, a capacidade da escolha mais fácil e criteriosa. Na TV e outras mídias, muitas vezes o conteúdo nos é empurrado goela abaixo sem uma reação imediata de nossa parte, que ficamos sentados e idiotizados. Na Internet estamos (pensamos que sim) no controle 100% do tempo.

  2. 2 leila 14 de abril de 2008 às 19:58

    Lindo texto Guedão!! Adorei, assim como estou adorando o livro! beijos

  3. 3 Nira Pomar 14 de abril de 2008 às 23:16

    É, meu amigo, o buraco é mais embaixo…
    Mas vamos levando, tentando preservar a história e os livros…

    [e viva os bibliotecários – sem querer puxar a brasa pra minha sardinha… hehehe]


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